25 março 2014

O Texto de Sempre



Todo dia ela faz tudo sempre igual.
Levanta, troca de roupas e toma um café, escova os dentes e antes de sair de casa faz um pedido.
Chega ao trabalho, após alguns minutos num engarrafamento, senta-se na mesma cadeira de sempre para fazer o mesmo serviço de sempre. Procura desesperadamente concentrar-se no trabalho para frear sua mente que trabalha num mundo melhor, que nunca irá existir.
As horas. Passam. Lentas.
Levanta- se, empurra a mesma cadeira de sempre para debaixo da mesa, pega  sua carteira e caminha lentamente, tentando pensar em  nada. Entra no elevador  e ao chegar á lanchonete, passa os olhos pelo local, procurando um lugar vazio.
Nesse momento vacila, abre uma brecha na armadura e  por um segundo, deseja sentar-se com alguém. Mas quem ela pensa que é!? Não é todo mundo que pode ter o privilégio de uma boa companhia. E ela é só mais uma. A mesma garota de sempre.
Pega a fila, põe sua comida,  a mesma de sempre, e atravessa a lanchonete bem rápido  para evitar que a vejam ali, sozinha, jogada num canto qualquer de uma lanchonete qualquer. Come a mesma sobremesa de sempre, mas o gosto já não é o mesmo, na verdade nem existe mais.
Levanta-se, percorre o corredor, novamente bem rápido, o dinheiro já está contado, só paga e sai. Do elevador, de volta a sala, senta- se na mesma cadeira de sempre, para fazer o mesmo serviço de sempre. Ela chora calada, o choro de sempre. Ninguém repara, como sempre.
O relógio marca a hora de voltar para casa, ela levanta- se, empurra a mesma cadeira de sempre para debaixo da mesa, pega suas pequenas coisas e vai. A volta é como um borrão. Como sua vida. A mesma vida de sempre.
Ao chegar, quer um banho e debaixo do chuveiro, deixa a água quente aquecer sua pele, até fazê-la arder um pouco, mas é o mesmo ardor de sempre.
Não janta, a fome não aparece, a mesma falta de apetite de sempre.
Antes de se deitar, faz todas as banalidades possíveis para se distrair. Vê televisão, ouve música, entra nas redes sociais, nas mesmas redes de sempre, as mesmas coisas.
Antes de se deitar faz um pedido.
Deita, fecha seus olhos e dorme. Dorme como sempre.
Todo dia ela faz tudo sempre igual.

Ninguém entende, ninguém se entende. O mesmo desentendimento de sempre.
O que ninguém sabe é o que a garota pede.
Pede que o pedido, um dia possa ser diferente.


Esther Lisboa

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