22 março 2014

PROMOÇÃO!


Quem sou eu? O ninguém questionou-me.
Contarei a minha história, e garanto que o mundo me ouvirá, me verá, me invejará.
Inveja.
Inveja é coisa boa, é alimento pra minha fome. É prêmio, é casta, é recompensa por ser exatamente igual e ninguém perceber.
Colecionarei noites em claro, dias no escuro, madrugadas cinzas.
Subirei nas escadas que construírem pra mim, descerei o corrimão sentada e serei aplaudida ao som dos meus sapatos batendo no carpete vermelho.
Serei o Deus do meu mundo, do seu. 
Farei o que há de ser feito, ultrapassarei as fronteiras do proibido.
Em meio aos edifícios, serei o mais alto.
Serei as luzes da cidade mais bonita,
Iluminarei até a pior das vidas.

Serei a moeda reluzente no chapéu do sem-teto, as luzes de entrada do cinema local.
Estarei no gosto do beijo roubado, na aliança presenteada, no perfume novo da floricultura.

Todos que por mim passarem, estarão em plena harmonia.
No silêncio burguês, habitarão os maldizeres que afundam os meus degraus.

Tudo isso, proporcionado pela minha auto-promoção.
Patrocinada e regida por mim, movida pelos olhos e quereres alheios.
A propaganda é a alma do meu negócio: o meu anúncio é o destaque do ano.
O povo me moverá, pisará os meus passos. Me erguerão acima de suas cabeças, por ser a personificação de seus sonhos inconfessáveis.

A cegueira ignorante é o meu abrigo, o vazio deles me preenche. 
Seu louvor é fútil, sua estante é cheia da minha forma.

A verdade é o meu medo. A coragem de nadar contra a minha corrente.
A minha oração é pontual e exasperada: que mantenham-se cegos.
Que continuem movendo a minha empresa.

O sucesso se dá pela oferta alta; o preço baixo.



Ana.

P.S.: A foto é minha, Curitiba há dois anos atrás ;)



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