18 julho 2014

Tragando a quebra da rotina nua

Há tanto não te via...

Não sei o motivo, mas hoje me deu vontade de deixar passar os sinais vermelhos. Pegar um atalho naquela avenida, desviar do meu caminho, e de alguma forma fui me conduzindo até o seu. Te vi sentado naquela lanchonete do seu bairro. Cantei seu nome sem nem perceber.

Quis olhar nos seus olhos, cê nem deixou.
Quis te sorrir, cê nem olhou. 

Você não sabe, mas te ver depois de tanto tempo me remeteu à primeira vez que isso aconteceu. A bagunça que sucede aqui dentro é exatamente a mesma toda santa vez. Panela caindo no chão do meu estômago. Desastre programado.

Toda vez que te olho, é a primeira. 
Toda vez que cê me vê, é a última.

Voltei pra casa, tirei a calça, a blusa, o casaco, o sutiã.
Liguei o som numa música triste dos anos 80, daquelas com um fundo de guitarra chiada e voz rasgada, junto ao fundo melancólico que me faz querer ter nascido um tanto mais cedo.
Remexi minhas gavetas, apanhei meu cigarro, cadê meu isqueiro; achei. Acendi. Sentei-me na cama, ao lado da janela. Deixei as cinzas caírem e queimarem a pele da minha virilha. Ponderei. Tossi o resto da minha saúde junto à fumaça, sem saber se a causa era o choro descoordenado ou a nicotina. Vazei minha agonia pelos olhos. 

Cigarro é uma coisa incrível. Traga tranquilidade, desespero e calmaria de volta pra onde nunca teve. Seria ótimo se também devolvesse tudo o que me roubou enquanto eu me distraía tragando. O juízo, as palavras, o lamento. Mas poderia ficar com as memórias. Não faço a menor relevância delas, bem na verdade.

Cigarro é o ponto final de uma vida em incêndio ininterrupto. A vida da qual me cansei hoje, dentro dum carro cercado num subúrbio caótico e estressante.  
Daria o ouro que fosse pra esquecer o que recebi de você dia desses. Ouvi mágoas dissimuladas, repreensões infundadas e infantilidade concentrada,
logo após do eu te amo disfarçado do carinho que cê me fez no rosto.

Meus dedos cheiram a cigarro. Fumei três esta noite.
Três cigarros, três tiros no resíduo de uma saúde que esvaiu-se em cinzas. Esvai-se a saúde, o corpo, o ânimo, e a memória fica. Fica pra terminar o serviço carrasco. Quem me dera o luxo de esquecer... Já tenho impregnado em mim aquele que sempre me deu o martírio de lembrar.

Quem me dera cair no esquecimento. Só sei tropeçar no nó da garganta.

Meus dedos cheiram a cigarro. Meus dedos, minhas roupas, meus cabelos.
Hora ou outra, o cheiro vai embora. E sobra só o seu.



Hey everyone. Perdão pelo texto pobre e melancólico.
Beijundas da Ana.

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