04 julho 2014

UM POUCO DE FICÇÃO NUNCA (ME) MATOU NINGUÉM


The Perks of Being a Wallflower <3

11 de junho de 2014.


Eu sei o que você está pensando: começar um texto desses com datas, horários, e qualquer medida de tempo e espaço é tão vago e clichê... Mas eu juro que cai bem com o resto da disposição de palavras. 


Estou ouvindo
Tracy Chapman. De novo, sim. É de certo modo reconfortante saber que sentimentos ruins podem ser convertidos em algo tão unicamente bonito quanto a música. Ou num texto despretensioso escrito numa folha de caderno por mãos falhas e sujas de tinta.
Não podem me culpar por marcar o único dia em que me senti genuinamente feliz, sei que não podem. Se já não fizeram isso, rogo aos céus que um dia o façam. Melhor: marquem o dia em que a felicidade começou, e esqueçam o dia em que ela foi embora sem avisar.
Fast Car nunca foi tão amarga quanto agora.

Tem uma coisa que detesto no meu quarto: a janela nunca fica completamente fechada. Há sempre uma maldita fresta que convida esse sopro glacial a invadir meu alento morno, e esse assobio chato que não cansa de se cantar ironicamente por ter conseguido entrar mais uma vez. Quase como eu e você em forma metafórica. Tem sempre essa maldita fresta que te convida a me invadir. Só que não é bem uma fresta. É uma fenda maior que eu.
Toda vez que tento calar esse martírio, me vejo obrigado a abrir a janela. Desta vez, abri mais do que o de costume. Avistei abaixo de mim o chão de pedra que ilha o prédio. 
Morar no 12º andar nunca me pareceu tão promissor.



Hoje faz exatamente um ano.

É fato que morremos um pouco a cada dia, mas depois de você, a minha viagem tem sido mais depressa. Padeço em um dia o que qualquer outra pessoa levaria uma semana. E espero que você saiba que a culpa é inteiramente sua.
Mentira.
É minha também.
Eu te deixei entrar. Na verdade, arrumei a casa inteira enquanto te esperava. E até a sujeira que escondi debaixo do tapete você conseguiu descobrir. A culpa também é minha por ter permitido que você visse tudo. A culpa é minha pela despretensão afogada em anseios.



Desde a sua partida, reorganizei algumas coisas. Tem mancha nova no assoalho, quadros novos nas paredes, geladeira vazia e os móveis também mudaram a ordem. A bagunça é a mesma, é só olhar debaixo do tapete de novo.
Se não fosse você, não haveriam mudanças. Nem ciúmes, nem planos, nem desejos, nem mágoas, sonhos, risos, sorrisos, gritos, choros, ah meu Deus, ne me quitte pas, não vai agora, me espera, me abraça, me leva, você foi embora e nem esperou eu servir o cappuccino...

Não haveria caco de vidro no meu chão, no meu pé. Não haveria caco do meu coração. Só um. Inteiro.


Se não fosse você, não haveria história. Crônica, texto, papel manchado dessa água que persiste em pingar dos meus olhos. Os que você um dia olhou e disse que era pra sempre. Eu fui tolo em ouvir, é claro. Pra sempre é um mero consolo que todo mundo quer.

Se não fosse você, não haveria história. Se não foi-se você...
 Mas é quase certo que um pouco de ficção nunca matou ninguém.

Se fosse ficção.


Hey, pessoal. Perdoem o sumiço, é a ressaca das férias.
Espero que tenham gostado do texto, eu não tenho tido muita criatividade ultimamente.
Beijundas da Ana


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