10 agosto 2014

O cara

 Eu estava animada pelo reconhecimento, quero dizer, não é todo dia que um dos meus professores mais admirados elogia um dos meus escritos.
- Paaai, eu gritei, olha, olha como estou chique, meu professor elogiou meu texto e até compartilhou, sorri, extremamente animada, esperando ansiosa por sua reação.
- Hmm, ele murmurou, me deixa ver isso. Meu coração ficou acelerado como em todas as vezes que ia mostrar algo ao meu pai. Ele sentou na cadeira próxima ao computador e começou a ler em voz alta, para minha mãe que havia chegado quase despercebida por mim.
[...]
Ao final do texto, sua voz tremia um pouco, seus olhos estavam marejados e ele tinha aquele sorrisinho engraçado de velhinho no rosto.
- Lindo, filha, ele me disse e abraçou-me. Meu coração estava acelerado e eu tinha vontade de sair gritando aos sete cantos que meu pai disse que meu texto era lindo, mesmo que eu soubesse que ele não diria, caso estivesse feio.
Minha mãe ainda falou algo sobre meu pai ser babão e acrescentou que o mundo precisava de palavras como as minhas para as coisas fazerem mais sentido, meu pai compartilhou o texto e fez um comentário sobre como eu era uma jovem incrível... Eu ria desesperadamente por dentro.
Agora, enquanto escrevo, ele está deitado sobre o tapete, ressonando um pouco e, cara, como eu o amo. As vezes é difícil a gente lidar com os pais, principalmente nessa época de adolescente na qual a gente só quer ganhar o mundo e eles só querem que a gente fique um pouco mais. As garotinhas que estão crescendo e tem todo aquele chamego pelo pai, que vão sair e procurar um parceiro que a lembre de seus bons tempos com seu velho e os garotões que irão dar seus meio abraços (aqueles engraçado que a gente dá com um braço só, quando estamos constrangidos) e rezar para ser metade do homem que o paizão é.

Todos sabem do meu medo de bordões, portanto vou apressar-me em finalizar antes desse texto transformar-se num enorme clichêzão, kkk. Mas eu ainda queria falar sobre como me dói ver essas pessoas que não tiveram o privilégio de crescer com a presença do pai porque eu não consigo imaginar como seria a minha vida sem o meu. Gostaria apenas que elas não tivessem uma imagem ruim dessa figura, algumas vezes, tão polêmica porque quem tem um papai na vida, cara, tem muito mesmo. Sei que na maior parte do tempo a gente só grita pela mamãe, mas se não fossem pelos pais do mundo... Acho que haveria mais tsunamis, terremotos e maremotos porque quando o tempo fecha, nada melhor que um pai para abrir o tempo e acalmar o coração.

Grande
Chato
Amigo
Bobão

Meu Deus
Que loucura, 
Ele quer me prender numa gaiola
Como se eu fosse um passarinho

Só porque estou aprendendo a voar
Ele está chateado
Meu coração está partido
Porque não quero fazê-lo sofrer

Mas é difícil não morrer
Um pouco todo momento
Quando ele dá aquele sermão
E fala que eu estou no seu coração

Quero mesmo é voar
Sair daqui para um outro lugar
Mas só de pensar em deixá-lo para trás
Meu coração em mil pedaços se desfaz

Só peço um pouco mais de paciência
Para ouvir meu chororô
Que irá brotar todo momento
Que me lembrar da tua carranca de amigo.


Esther Lisboa

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