03 setembro 2014

Aqui dentro, chove mais que lá fora.


3 de Setembro.

Primeira percepção do dia: dor nos ossos.
Madrugada abafada. No chão quente, meus pés.
No corpo, regata, calcinha, cansaço. Cabelo pra todos os lados.
No peito, a válvula que pulsa inútil.
Banho do morno pro frio, café amargo.
Cotidiano intragável.

Pernas, mãos, rosto sujo de tinta.
Um Pollock ambulante e dificilmente interativo.
Lábios gosto de vinho modesto. Pupila dilatada, buraco pruma coletânea de sensos lisérgicos.
Calor.


Dor de cabeça.
Dor de fome.


Barulho excruciante.
Ódio eterno ao ensino médio.
Malditos sejam aqueles que me cobram.
Como se eu soubesse me explicar
Como se eu soubesse explicar o mundo.
Cobram mais de mim que de si.

Maldita seja a predileção.
Como se fosse culpa minha não saber me explicar.
Como se fosse culpa minha não nascer moldada ao desejo comum.
Modelo ordinário.
Pro inferno.

Dor de cabeça.
Dor de fome.
Dor na insuficiência.

Mais cobrança. Mais cansaço.
Mais incompetência.
Levaram-me a acreditar
Que não passo de
Déficit, déficit, déficit
Capaz de sempre fazer tudo ao contrário.
Me fizeram esquecer meu produto interno bruto.
Esqueci o que eu era, pra aprender a ser o que eles querem que eu seja.

Dor de cabeça.
Dor de fome.
Dor na insuficiência.
Dor da perda.
Luto.
Luto a cada dia. Pra ser uma, ou duas, ou trinta.


Ouvi a clemência de um diabético no ônibus.
Doeu tudo.
O dinheiro da minha semana foi pras mãos sujas, e prum sorriso triste.
"Eu já tenho quase a metade, meus amados!"
Choveu nas minhas bochechas.

E então, choveu lá fora.
A cidade virou espelho
Minha janela agora é labirinto de gotinhas
Meu óculos também.

Banho do morno pro quente, café doce.
No peito, a válvula que pulsa há dezessete anos.
No corpo, regata, calcinha, cansaço. Cabelo pra todos os lados.
Madrugada fria. No cobertor, meus pés.

Última percepção do dia: as dores se calaram. Ao menos até a próxima manhã.

Mais que atrasada, Ana. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário