13 outubro 2014

O Corpo Reclama.




Minha teoria, é que a alma é um contêiner. Quando enche, transborda pela garganta. Ou pelos olhos.
É segunda, e segundas são amargas e explicativas.
Segundo beijo, segundo gole de café, segunda vez que eu ouço essa música.
A segunda vez elucida tudo.
É quase meia noite, quase terça.
As terças-vezes não me agradam muito.
Explicam demais.

Faz frio e chove, chove em Brasília pela primeira vez este ano.
Tirei minhas meias e minhas calças.
Quis sentir o gelo do chão subir meus ossos.
Me fazer doer ao respirar.
Sentir a tempestade dentro do meu estômago.
Quase como quando se chora pela melancolia...
Quase como quando se chora pela segunda vez.
Meu corpo reclama.

Minh'alma transborda, e enche de novo...
Pela mesma água, cada vez de uma tempestade diferente.

Ainda preciso de um terceiro gosto,
Um primeiro beijo,
Um quarto de calor, um quarto quente.
Um segundo rosto.

Eu preciso dum oceano pra regar
Duma floresta, duma seca.
Que me seque as lágrimas,
e as mágoas que minha garganta chora.

Eu preciso duma cama. Um corpo morno e bagunçado.
Um quarto que eu nunca vi.
Que tenha ao menos um quarto do que eu quero ter.
Uma janela pra molhar, uma cortina de cor quente.
Um travesseiro amassado, a luz apagada.
Preciso de uma chance pra chover.

Neblina em Brasília, e toca Cícero no meu radinho.
Do fundo escuro do meu quarto de segundas impressões,
A tristeza quis entrar pela janela.
Ela encaixa bem com o cenário. Deixei.
Qualquer coisa que me preencha, à essa altura do som, é boa.

Minha teoria é que a alma é um contêiner. Quando enche, transborda pela garganta. Ou pelos olhos.
Minh'alma tá rasa, rés.
Ainda coleciona as poças da última chuva.
Há meses.
Preciso prever a próxima.
Ou alguém que me preveja.
Meu choro vazou em forma de chuva do alto da cidade.
Molhou os prédios e aquela estação de metrô aqui perto de casa,
e mais um monte de gente do meu convívio.
E eu ainda torço pela lentidão do olhar daqueles que me vêem...


Quero uma chance pra viver,
                                 pra cê vir ver
                                             como ficou meu rosto
                                                              depois da sua última tempestade.






Mais que atrasada,
Ana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário