25 dezembro 2014

Mas pode me chamar de Prostituta.






A luz laranja da manhã rompe o intervalo entre o ato e a culpa.
O mundo assopra as cortinas, o assobio invade o meu íntimo.


Termino mais uma noite sem cobrar,
Com gosto anônimo na boca, nas mãos, nas pernas e no desejo.
Meu pescoço sempre ganha um perfume novo.
O deles, cheira sempre ao meu.


Vejo história em suas paredes, em suas roupas e seus fetiches.
Fetiches... Sou cada um deles.
Quase dezoito anos, e mais história que qualquer outra mulher que já vi.
Termino mais uma noite cobrando demais (de mim).


Levanto (parcialmente) saciada.
Pego minha calcinha frouxa, minha saia.

Meus tênis rasgados, meu casaco.
Na cama, outro estranho.


A taça de vinho ruim no criado mudo ainda está cheia. Dou três goles, acordo.
Desligo a tv de cores previsíveis.

Fecho mais uma ou duas portas de maçaneta fria,
Outras que nunca mais abrirei.



Cinco da manhã.

As luzes da cidade ainda acordam.
O reflexo do sol nos vitrais de uma igreja qualquer me evitam.
Presságio.


O metrô espera, por dez segundos ou menos, e corre.
(Mais do que já esperei por mim mesma)


Em menos de três cigarros, ele chega.
Dessa pouca gente que me vê, me vêem torta.
Minha imoralidade estampada em marcas roxas ao longo do meu pescoço.
Sou a roupa amarrotada no fundo de suas gavetas.
Dessa gente pouca, muita máscara moral.


Abro a porta que bem conheço,
Abro meu quarto e ele me abre. Receptivo.
Ele sabe da minha insuficiência,
             do meu choro quente.
                                            Do meu amor incondicional por ninguém,
                          do meu sexo que sempre dói.
                              Da minha vontade de ser opção,
                              Da minha opção de ser vontade.


Meu único amigo.


Tiro cada peça de roupa com pressa.
A minha nudez me veste da verdade que o mundo me obriga a esconder.
Aqui, no fundo de mim.
(mais fundo que qualquer um deles já conseguiu chegar)


Deitada nua no chão, aguardo as horas até o próximo encontro.
Anseio a próxima voz, o próximo cheiro, o próximo quarto
                                                                                 cama
                                                                               pele
                                                                               mão
                                                                                  corpo.



Três horas até a próxima embriaguez.
Espero que o próximo goste dos resquícios que o último deixou.
Dentro e fora, por todos os lados.





Meu nome é o teu,
Mas pode me chamar de prostituta.






Atrasada pra não perder o horário, Ana.

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