15 fevereiro 2015

Sobre ser aluno

 São tantas cadeiras. Todas ocupadas, mesmo que eu tenha chegado cedo. Um respirando a respiração do outro, escutando o som dos pés batendo nervosamente no chão e a batucada das mãos no espaço inexistente das mesas, sentindo a vibração do celular que estava no bolso, na bolsa, no colo... Todos como eu. Ansiosos para o tempo passar, ansiosos para o tempo não passar, para ter uma chance de olhar mais uma vez, de escutar ou anotar o que já passou, que já foi pronunciado e executado. A gente, que quer quase beber aquelas palavras, que cansa e descansa a cabeça, cansada, sobre os cadernos e apostilas infintas, que acha que nunca é o suficiente, que busca nos olhares atentos, não amor, nada mais de amor, mas um sinal de desistência, de cansaço, para justificar nossa falta de paciência, de força de vontade.
Nos finais de semana, feriados e achados, das camas nos despedimos, da rigidez das mesas geladas nos aproximamos, cada vez mais desanimados... Lembramos e nos frustramos com a imagem do concorrente atento, esforçado, persistente e insistente no achado dos números, no chorar das palavras, que nos deixa para trás com sua perspicácia. A gente cansa de correr atrás do prejuízo, de ouvir que não se esforçou, que não estudou, que desperdiçou, que não foi o suficiente o que fizemos e lamentamos o tempo gasto com risos e importâncias supérfluas, com os favores concedidos e os trabalhos desgastados para chegar no fim e nada. NADA. Nem uma informação importante para colocar no currículo. Nenhuma aprovação. Nenhum afago.
O fato é que, do mais esperto ao mais bobo, certas dúvidas nunca ficam para trás. A gente cresce em tamanho (nem todos, na verdade haha), em conhecimento (menos ainda que em tamanho) mas nunca deixamos de nos questionar sobre quantas folhas deixar para tal matéria, a cor da caneta que iremos usar, se preta ou azul, se compramos fichário ou caderno, se o professor é legal ou não, se tiramos aquela dúvida boba, se copiamos ou prestamos atenção, se cochilamos ou tentamos prestar atenção mesmo com sono, se respondemos aquela mensagem, mesmo no meio da aula, se levamos a garrafinha de água já cheia, se  ficamos a tarde para estudar ou se vamos para casa (para todos os efeitos, também estudar- sqn), se almoçamos ou só fazemos um lanche... 
É tão difícil deixar para trás todo o comodismo, toda a segurança de se saber exatamente o que fazer no ano seguinte, a calma de se ter mais tempo. É desesperador ser jogado no mundo, acostumado a ter aulas sobre tudo e descobrir que não teve aulas sobre o principal: como sobreviver num mundo cruel, num jogo tão competitivo. Você se vê uma criança novamente, no primeiro dia de aula, chorando para a mamãe não ir embora e te deixar com aquele bando de gente estranha (que podem muito bem ser assassinos em potencial, ou pior, futuros aprovados no vestibular).Sua mãe realmente deixou de comprar lanchinhos para você levar para a escola mas você ainda nem tem dinheiro para comprar o seu próprio. Não sendo sensível demais, apenas realista. Ser aluno é foda mas deixar de ser é assustador.
Quando eu era criança, achava que você saia da escola direto para universidade, hoje sei que a única coisa que se faz direto na vida, é respirar (e olhe lá). A questão não estar em ser aluno mas em saber deixar de aprender com professores e começar a aprender com a vida lições que ninguém pode te ensinar, mas momentos sim, experiências sim. Saber se divertir, escolher bem suas companhias, ser sincero e gentil, dizer não... Coisas que não se aprendem na escola e que, coincidentemente, estão em falta.





Esther Lisboa






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