13 março 2015

Março

A chuva que vela, que vaga, que espera. Me aguarda na esquina de qualquer vacilar. O vento que mexe, que move, que espira ser coisa alguma.
A arte de se descuidar, se despir das camadas e mais camadas, crostas de apego pelo mimo, pelo mito, a imagem que se traz de um todo que, vai ver, nem existe.
Nasci de novo nessa água, que não lavou minha alma, nem corpo, nem cara, mas trouxe paz ao meu caos, afogou minhas tristezas, acalmou minhas incertezas. 
Chuva que cai, forte
Eu caio fraca, também
Chuva que cai, alta
Eu caio baixa, também
Chuva que lava
Eu que imundo
Que rompe
Eu que reprimo
Que rio
Que riso
Que rimo
Ou tento
Trouxeste tudo que achava ser impossível encontrar. Lembraste tudo que eu achava complicado chorar. Compraste tudo que cismava em abominar. Falava tudo que eu insistia em ignorar. 
Fugiste sempre do confronto com o fim, porque a chuva que caia em mim, talvez nunca encharcasse seu lar. 

A vi na chuva banhar
Sua roupa insistia em moldar
Seu corpo, roto, parecia- me vazio, esvaziava-me o parecer, dominava-me o ser.
Caminhava fixa numa euforia inconstante, deslumbrante, alucinante, como num banquete farto a gente se vê.
Seu balançado agitava-me a mente, anunciava, débil, as suas ações.
Como eu a via
Como ela se via
Como nos vir amor
Sua calça encharcada, empapava-me o canto
Sua blusa colada, apertava-me o santo
Seu corpo moldado, moreno, passado, pesado, invadia o meu duvidar, dizia-me ser tanto o que tanto abandonei
Voltei para ela
Voltei para mim
Voltei para nós, sim
Cantei com ela
Cantei com o mar
Cantei com o nosso pensar
Pesar da sorte
De não estar ali, de apenas ouvir dizer
O imaginar
Me deixou sem estar perto dela
Minha parte
Pessoal
Meu delírio
Sazonal
Minha paixão
Choveu



Resultado do meu primeiro banho de chuva (o primeiro de muitos, espero), que, diferente do que as pessoas diziam, não me lavou a alma nem nada, mas me trouxe de volta coisas que eu já havia perdido, esquecido, como a paz da simplicidade e a capacidade de não pensar em nada.



Esther Lisboa

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