03 maio 2015

Ele, ela.




    Naquela sexta ela acordou atrasada pra faculdade. Tinha ficado até tarde da noite entre câmeras e editores de vídeo, fazendo seus trabalhos de final de semestre e perdeu a noção do tempo.
    Já ele, estava perdido. Tinha acabado de chegar na cidade e não sabia nem se quer em que quadra ficava o apartamento que tinha alugado. Todos que lhe deram informações diziam que era só virar ali e acolá, mas entre esquerdas e direitas se confundia ainda mais.
  Ela se atrapalhou toda ao entrar na sala. Como se não bastasse o atraso, ainda atraiu a atenção de todos ao deixar sua bolsa cair no chão e de lá saltitarem canetas, balas e batons.Nem era sexta-feira 13, mas aquele dia definitivamente não estava trazendo sorte.
   Depois de 2 horas andando em círculos, ele encontrou o lugar que seria seu novo lar. Era tudo muito novo e estranho para ele, essa vida de ter que morar sozinho e em uma outra cidade parecia bem difícil de se adaptar. Se atirou no chão junto com suas malas e suspirou como quem se pergunta: " E agora, o que será que vem depois?"
  Uma, duas, três, quatro horas de aulas. Ao final ela estava exausta. Só não o suficiente para deixar de passar na sua cafeteria preferida, que não ficava a muitas quadras dali. Ela desejou mentalmente ter superpoder de teletransporte para não ter que ficar carregando aquela tralha toda da faculdade.
   Ele decidiu dar uma volta, afinal teria que se acostumar com o lugar e seria bem chato ter que errar todos os dias o seu prédio.
   "Acho que esse caminho ficou um pouquinho maior", ela pensou. "Da última vez me pareceu tão mais perto! ". Mas da ponta da rua conseguia enxergar as cadeiras bonitas do Fran's e o delicioso cheiro de café era possível sentir dali.
   Ele foi tentando decorar pontos de referência: uma pizzaria ali, um supermercado aqui, uma livraria acolá. Andou distraído tentando registar todos os lugares até que esbarrou em alguém. E tudo que conseguiu ver foi um avalanche de papéis espalhados pelo chão.
   Não. Não. Não. Não pode ser! Ela viu seu trabalho que levou a semana inteira pra ficar pronto todo espalhando na rua. E antes mesmo de tomar alguma atitude, o responsável  que havia feito aquilo estava os recolhendo. Estava pensando em 50 formas diferente de mata-lo, até que o olhou pela primeira vez e achou que talvez ele não merecia uma morte tão cruel assim.
   Ele não pensou em outra coisa a não ser no quanto era um desastrado. Com certeza deveria ser alguma coisa importante, isso ele sabia. Recolheu todas folhas antes que alguém as pisasse e entregou-as a moça. E quando os seus olhares se encontraram ele sentiu como se a conhecesse de algum lugar.
   Por dentro, ela dava gargalhadas incessantes. Ele se desculpou o suficiente pela humanidade todinha. E por julgar seu sotaque diferente, ele não era dali. Ela disse que tudo bem, afinal seu dia já tinha sido todo errado mesmo, apenas deixou pra lá e se despediu dele.
   Ele observou ela indo embora sem entender muita coisa e ainda se perguntava de onde a conhecia. Viu ela entrando numa cafeteria e a seguiu.
   Quando se sentou para fazer seu pedido, eis que o moço atrapalhado aparece mais uma vez. Ele pede para se sentar com ela e se desculpa mais uma vez. Ela ri. Depois ele pergunta se pode lhe pagar um café e ela dá de ombros como quem diz: "Por que não?".
   Depois de algum tempo de conversa eles descobriram um monte de coisas em comum. Parecia até uma coisa impossível! Ele até conhecia aquela banda que ela jurava ser só dela!
   No meio disso, ela tentava não encarar por muito tempo aqueles olhos azuis intimidantes. E ele por sua vez tentava não se destrair com aquele sorriso de lado que causava sensações novas nele.
   Mesmo o papo estando muito agradável era hora de ir, ela disse. Era um tanto estranho ficar conversando com um completo desconhecido, mesmo ele sendo um completo lindo. Claro que ela não disse isso, mas pensou.
  Ele não queria ir. Para o seu primeiro dia ali até que tinha sido emocionante conhecer uma pessoal legal logo de cara. Mesmo não tendo sido em circunstâncias mais agradáveis.
   Se despediram e cada um foi para o seu canto. Ela um pouco intrigada com aquilo tudo e ele com um sorriso de orelha a orelha como se tivesse conquistado algo muito valioso.
   Claro que pelo cotidiano, esse encontro caiu no esquecimento. Até que o acaso os uniu mais uma vez em uma dessas festas estranhas com gente esquisita. Bem despretensioso.
   E por algum tempo foi assim. Amigos por acaso, do nada por nada, que tinham uma bagagem de coisas em comum. Até que borboletas atacaram e sentimentos se transformaram, no que eu posso chamar de o grande talvez.

Marcella Freitas

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